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Pneumologista da SMCC explica por que é tão importante parar de fumar

Dr. Rene Penna Chaves Neto

Considerado uma das principais causas de mortes evitáveis, tabagismo causa diversos problemas à saúde

Neste dia 31 de maio, é celebrado o Dia Mundial sem Tabaco, criado em 1987 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para alertar sobre as doenças e mortes referentes ao tabagismo. Neste ano, a campanha da OMS tem como tema “Comprometa-se a parar de fumar durante a Covid-19”. A Organização apresenta 101 razões para parar de fumar, que podem ser conferidas neste link: https://www.who.int/news-room/spotlight/more-than-100-reasons-to-quit-tobacco

Nós conversamos sobre o assunto com o pneumologista e coordenador do Departamento Científico de Pneumologia Dr. Rene Penna Chaves Neto. Confira a entrevista:

Não é segredo para ninguém que o cigarro faz mal para a saúde. Por favor, explique como o cigarro age no organismo desde a inalação.

A partir do momento em que é inalado pela boca, inicia-se sua ação nociva à saúde do usuário. Devido à sua alta temperatura e presença de substâncias irritantes à mucosa, já causa danos à superfície das mucosas, o que explica sua correlação com patologias da língua e da boca. A fumaça, ao atingir as vias aéreas mais inferiores, também provoca paralisação dos pequenos cílios presentes nas células epiteliais da mucosa, desencadeia uma reação inflamatória por estímulo de mediadores químicos, iniciando os processos que resultarão em enfisema pulmonar e bronquite crônica (DPOC – Doença Pulmonar Crônica), bem como metaplasias celulares que podem resultar no câncer de pulmão.


Quais doenças o cigarro pode causar ao longo do tempo e por quê?

Já é de longa data que se sabe que os malefícios do tabagismo não se resumem exclusivamente às vias aéreas. Doenças cardiocirculatórias estão intimamente relacionadas aos efeitos do fumo, como coronariopatias e AVC (Acidente Vascular Cerebral). Sua correlação com neoplasias (câncer) já está comprovada em vários sistemas do corpo humano, sendo os principais sistemas o respiratório, digestório e urinário, porém, pode ocorrer em qualquer outro.

Por que o cigarro vicia?

A substância química presente no cigarro relacionada à dependência é a nicotina, que liga-se a neuroreceptores, causando efeitos traduzidos subjetivamente e individualmente por bem-estar e saciedade. Quando há a diminuição dos níveis séricos da nicotina, a sensação é de necessidade de fumar mais, o que leva à dependência. Sabe-se hoje que a dependência à nicotina está determinada geneticamente em cada indivíduo, em diferentes “graus”, por isso algumas pessoas conseguem largar o cigarro com mais facilidades do que outras. Existe um questionário que pode avaliar o grau de dependência, chamado Teste de Fagerström CLIQUE AQUI 

Quais as orientações mais eficazes que uma pessoa que quer parar de fumar deve seguir?

Para obter sucesso no absenteísmo, há necessidade de mudanças comportamentais globais . Quem depositar estratégia em um ou outro método isoladamente tem poucas chances de lograr êxito a longo prazo. Tudo inicia-se com uma forte motivação e, maior ainda, força de vontade e determinação individual. O grau de dependência também influencia no êxito. Há várias abordagens no tratamento para cessação do tabagismo, por isso os programas para tal são multidisciplinares, envolvendo médicos, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas e fisioterapeutas. Como medida de apoio, há no mercado farmacológico substâncias que auxiliam no tratamento antitabagismo, podendo agir como inibidores da vontade de fumar via sistema nervoso central,  bloqueadores de neuroreceptores da nicotina, diminuindo a sensação prazerosa e, também, adesivos de liberação lenta de nicotina para combater as síndromes de abstinência.

Já tentei de tudo e não consegui parar de fumar. Existe alguma quantidade de cigarro diária que reduza meus riscos?

Existe uma correlação direta entre a quantidade de maços/anos fumados com o desenvolvimento de patologias tabaco relacionadas. No entanto, não pode-se afirmar que há uma quantidade mínima segura, pois as consequências do tabagismo são muito individuais e geneticamente determinadas. Tanto é verdade que doenças foram relacionadas às pessoas que convivem com fumantes, os chamados fumantes passivos, mas logicamente com menores probabilidades que os tabagistas diretos. O ideal é não fumar.

Existe alguma orientação para a pessoa que não consegue parar de fumar seguir e diminuir os impactos do tabaco?

Não há como diminuir os impactos do tabaco se não cessar o tabagismo. Como dito acima, quanto menos tabagismo, menores as probabilidades de doença, mas não podemos quantificar isso. As pessoas com dificuldade de cessação de tabagismo devem procurar serviços e programas de cessação de tabagismo multidisciplinares, inclusive ofertados pelo SUS (Sistema Único de Saúde).

É verdade que se a pessoa para de fumar, os efeitos no pulmão começam a regredir? Se sim, depois de quanto tempo?

Após a cessação da exposição aos fatores irritantes e nocivos do tabagismo, há uma diminuição do processo inflamatório, mas depende do grau de acometimento desenvolvido durante o período de tabagismo ativo. No início, alguns indivíduos relatam até uma piora do quadro de expectoração, porém isso pode ser traduzido como um retorno das funções de depuração das secreções pelas células ciliadas da mucosa das vias aéreas, demonstrando a regressão das alterações pulmonares. Quando o tabagismo determina lesões mais acentuadas e crônicas, os sintomas tendem a permanecer, mesmo após a cessação. Considera-se uma pessoa como ex-fumante quem conseguiu cessar por prazo superior a um ano e estima-se que após 10 anos sem fumar, suas probabilidades de adquirir doenças tabaco relacionadas aproximam-se novamente aos não fumantes, exceto naqueles que desenvolveram alterações graves e crônicas. Portanto, quanto mais precocemente conseguir a cessação, melhores suas chances.

O cigarro é o principal fator de câncer no pulmão?

Sem dúvida, é o principal, mas não é exclusivo. Hoje sabe-se que inúmeras outras substâncias químicas têm poder carcinogênico e exposições a elas estão por toda parte, desde aos índices de poluição ambiental, como produtos e matérias-primas utilizadas pelas indústrias.

Existe algo que determine que um fumante terá ou não câncer no pulmão?

Avaliar geneticamente a sequência de DNA e quantificar riscos de carcinogênese em linhagens familiares já existe, porém está longe de nossa realidade de prática clínica, ficando resumida a centros de pesquisas. Mas nunca devemos esquecer que estamos lidando com probabilidades, podendo existir casos de pessoas que nunca fumaram e desenvolveram câncer, bem como o oposto também é realidade, pessoas fumantes que não desenvolveram. Trata-se de uma aposta em que o prêmio é a qualidade de vida e a longevidade.

Que tipo de alerta o senhor gostaria de dar à população neste dia?

Atualmente, as informações estão à disposição e de fácil acesso à população, não cabendo mais a desculpa da desinformação para continuar fumando. Os indivíduos que o fazem têm o conhecimento e o fazem por opção ou incapacidade individual da cessação e devem procurar ajuda profissional. Hoje o tabagismo é definido como uma das principais causas evitáveis de morbidades. 

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