Médicos e Gestores da saúde pública e privada discutem dados e novas estratégias para lidar com a Covid-19 em Campinas durante o VI Fórum da SMCC

3 jul, 2020 | Notícias

Em mais uma (6ª) edição do Fórum da SMCC “Situação Atual Covid-19 em Campinas” nesta quinta-feira (02/07) representantes de quase todos os hospitais, além de gestores da Saúde pública e privada estiveram reunidos para atualizar a situação dos leitos na região, analisar os dados do I Inquérito Soroepidemiológico Covid-19 promovido pelo Departamento de Vigilância Sanitária (DEVISA) e discutir novas estratégias para as próximas semanas.

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SITUAÇÃO NOS HOSPITAIS

O já tradicional “giro pelos hospitais”, onde representantes de quase todos os hospitais da cidade relatam a situação dos leitos e contaminação de profissionais da saúde dentro de suas unidades trouxe uma aparente sensação de estabilidade em relação a semana anterior.

Ainda não se trata de uma afirmação de melhora da situação da pandemia, mas sim uma percepção aparente até porque foi sentido um aumento da demanda de casos de síndrome gripal nos Pronto-Socorros e Pronto Atendimentos. O momento é o que os médicos resumiram como uma aparente “redução da piora”.

“Nós estamos numa situação muito semelhante a da semana passada em número de casos, número de óbitos. Um sentimento que… a impressão que nós temos é que parou de piorar. Melhorar não melhorou, vamos deixar bem claro” resumiu o Secretário de Saúde de Campinas, Dr. Carmino de Sousa. Ele ainda ponderou: “Nós já tivemos em alguns momentos uma pressão muito maior para leitos de retaguarda e leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Não quer dizer que estamos confortáveis. Não estamos! A gente tem trabalhado no limite, no fio da navalha, mas temos conseguido oferecer acesso aos pacientes. Para a próxima semana a gente vai ter um incremento (novos leitos) importante no Hospital Ouro Verde e a gente pretende estabilizar”.

Dr. Carmino ainda trouxe um dado importante: “Campinas dentro dos critérios internacionais de 20 leitos de UTI /100 mil habitantes para Covid-19, a gente tem quase 50% a mais do que isso e mesmo assim estamos pressionados”.

Os representantes dos hospitais trouxeram notícias animadoras em relação ao controle dos surtos de contaminação de profissionais de saúde dentro das unidades hospitalares. Aparentemente, as ações coordenadas pelos gestores surtiram efeito e reduziram as baixas entre aqueles que estão na linha de frente, possibilitando um alívio nesse problema no momento.

Os diversos representantes de hospitais privados relataram, no geral, uma situação parecida com a semana passada na ocupação de leitos de UTI e enfermarias. Alguns notaram aumento ao longo da semana passada, mas que reduziu no início desta semana.  

Por outro lado, os leitos públicos continuam com ocupação máxima, seja em UTI ou em enfermarias. Mesmo com a criação de novas vagas e o uso de leitos em hospitais privados para acomodação de pacientes do SUS (Sistema Único de Saúde), a ocupação continua crítica.

A unanimidade foi que a pressão de casos de síndrome gripal (o que inclui muitas vezes a Covid-19) nos Pronto-Socorros aumentou bastante, chegando a incremento de até 30% em relação a semana passada. Isso demonstra que a doença está circulando mais livremente na cidade.

Ao final do “giro pelos hospitais” a Diretora do Departamento de Vigilância em Saúde de Campinas, Andrea Von Zuben, trouxe números de um censo diário preenchido por todos os hospitais, dando uma visão geral dos dados. “Hoje temos 750 pessoas internadas por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em Campinas. Umas 350 pessoas internadas em UTI, com média de internação entre público e privado de 14 dias. Esta média melhorou, era uma média de 21 dias e diminuiu. De todas as internações por Covid-19 em todos os hospitais até o momento, 68% foram mantidos em enfermaria e outros 28% precisaram de UTI. Estamos com menos casos novos de SRAG nesta semana. Porém, fiz uma análise ontem, e fiquei muito impressionada com aumento da Síndrome Gripal (SG), não a grave. De Maio para Junho tivemos aumento de mais de 5 vezes os casos de SG no nosso município. São 500 casos em média por semana (epidemiológica).

Apresentação do “I Inquérito Soroepidemiológico Covid-19 de Campinas”

A médica epidemiologista e Professora Titular do Departamento de Saúde Coletiva da FCM/UNICAMP, Profa. Dra. Maria Rita Donalisio, apresentou os dados do primeiro inquérito levantados em um período de 10 dias. Foram realizados testes rápidos de sorologia (IgM e IgG) e um questionário foi aplicado junto a amostra da população de Campinas, escolhidas por sorteio, numa ação coordenada envolvendo os profissionais das unidades básicas de saúde (UBS). Foram cerca de 1.937 domicílios campineiros sorteados.

O número de infectados pode ser ainda maior uma vez que o Inquérito identificou que há 3,8 mais pessoas infectadas que as captadas pelo sistema de saúde. O índice em Campinas ainda é aparentemente melhor que em outras regiões do Estado e no restante do Brasil onde a proporção está entre 7 a 10 vezes maior. Esses pacientes relataram como principais sintomas: febre, dor de garganta, coriza e tosse.

Os homens, na faixa etária de 20 a 59 anos, com idade média de 49 anos, foram os mais infectados. Cerca de 37% dos infectados foram assintomáticos. A maior proporção de campineiros que já foram infectados pela Covid-19 relataram o contato com pessoas suspeitas ou positivas para a Covid-19 dentro do próprio domicílio. No entanto é importante entender que quem trouxe a doença para casa adquiriu em outro lugar que não sua casa e foi, provavelmente, no próprio município de Campinas, conforme o documento.

Apesar de mais de 66,5% dos entrevistados afirmarem estarem em isolamento, ao serem questionados sobre saídas de casa nas últimas semanas, contraditoriamente confessaram terem saído e os motivos mais relatados foram: 1º) alimentação/ farmácia/ banco; 2º) trabalho; 3º) lazer; 4º) atendimento de saúde e 5º) visita a familiares. Logo, esse dado de 66,5% de isolamento não reflete a realidade das pessoas. A maior parte dos campineiros infectados afirmaram que usavam máscaras sempre, mas quase 7% deles relataram o uso “às vezes” e 6% relatam que não faziam uso tão frequente de álcool gel nas saídas de casa.

Fazendo uma projeção estimada para a população total de Campinas, o inquérito sugeriu 2,2% de prevalência da Covid-19 na população (cerca de 27.087 infectados no município). Embora o início da transmissão tenha ocorrido no distrito Leste, a prevalência da Covid-19 é maior no distrito Noroeste, seguido do Norte, Sudoeste, Sul e Leste, indicando a migração da epidemia para a periferia.

O Inquérito sugere que a prevalência da COVID-19 baixa significa que há muitas pessoas sob risco de adoecer e que portanto, devem manter as medidas de distanciamento social, saindo somente se necessário e com todos os cuidados (máscaras, higiene pessoal e evitar ficar a menos de 2 metros das outras pessoas).

Um novo inquérito soro epidemiológico está planejado para daqui a algumas semanas.

Análise e Novas Estratégias

Os dados do Inquérito tiveram como imediata reflexão que a população ainda está muito susceptível ao contágio e que para cada caso existem outros quatro desconhecidos. Em outros lugares do país esta relação é maior, o que mostra como o atendimento, rastreamento e troca de informações em Campinas tem sido fundamental para os controlar os casos.

Para o Coordenador do Departamento de Infectologia da SMCC, Dr. Rodrigo Angerami, o Inquérito mostra que Campinas tem uma rede muito potente e vigilante. Porém, o documento não responde todas as lacunas. Dr. Angerami ponderou: “Mas traz informações preliminares sobre como a doença ocorreu até a realização do Inquérito. Testes tem limitações de sensibilidade e especificidade, por isso é difícil comparar prevalência com outros estudos e inquéritos realizados, principalmente quando os testes foram distintos. Tivemos um momento pré-flexibilização (quando houve o 1º inquérito) e um momento pós-flexibilização. Estou muito curioso com o resultado de um segundo inquérito num momento de pós-flexibilização. Ajuda a compreender a distribuição, mas não nos permite predizer que estamos próximos do fim. O conceito de imunidade ou quando terminará a primeira onda, o soro inquérito não nos permite esse tipo de inferência”.

O Infectologista, Dr.André Ribas Freitas, representante da Faculdade São Leopoldo Mandic, acredita que o material demostra que se a gente isolar os pacientes com síndrome gripal é possível impactar sim na transmissão. Seria esta uma “fortaleza das medidas de controle”. “Se você tem testagem ágil suficiente para identificar paciente logo no início dos sintomas, falo de PCR (Rt-PCR)… e de PCR com resultado em 24, 48 horas. Não dá pra pensar em teste rápido que demora oito dias. Poderíamos pensar em estratégia de testagem, rastrear e identificar o portador antes de transmitir”.

Outra questão destacada durante a apresentação do inquérito foi que a partir de um caso confirmado, as pessoas dentro do mesmo domicílio tomam mais cuidados, por isso o número de contactuantes contaminados foi menor quando sabiam que um familiar estava realmente positivo.

Dr. André ainda comentou: “Se as medidas fossem rigorosas talvez a gente consiga até reabrir o comércio e outros setores e mesmo assim controlar (a transmissão) da doença. É uma mudança de paradigma. E reforçar medidas de controle no transporte público, que eu acho que ali é onde uma grande parte da transmissão ocorre. Aí teríamos uma inteligência epidemiológica atuando”.

O Secretário de Saúde, Dr. Carmino respondeu ao dizer que existe o exame tipo PCR, só é preciso implantar a logística. Concordou em reforçar o isolamento e não descartou a possibilidade de incluir a EMDEC para contribuir com a solução de logística para ajudar nos protocolos de higiene no transporte público.

A Dra. Valéria Almeida, da DEVISA, também trouxe a notícia que o Estado de São Paulo vai ampliar a testagem para todos os casos de SG, independente dos critérios de idade e profissão. “A gente tem condições de fazer o Rt-PCR que o Estado vai fornecer, no entanto a gente tem uma questão logística para equalizar. Vamos tentar agora iniciar uma campanha intensificando, com material inclusive sobre isolamento das pessoas na família e começar a trabalhar principalmente nos territórios próximos às UBS”.

Para o Diretor de Comunicação da SMCC, Dr. Marcelo Amade Camargo, é preciso repensar o investimento do dinheiro público neste momento. “A situação financeira novamente se impõe, não só em Campinas, nem São Paulo, nem só o Brasil, mas é no mundo inteiro. Envolve muito dinheiro direcionado para a recuperação da economia. Acho que nestes pontos cruciais, eventualmente, vale a reflexão do gestor público de talvez direcionar recursos para campanhas de conscientização e manejo melhor para a questão, por exemplo, do transporte público, porque senão vai ter que direcionar este dinheiro para leitos de UTI. Então é um redirecionamento inteligente”, afirmou.

Com base nos dados apresentados do I Inquérito Soroepidemiológico, o grupo de médicos, gestores e principais autoridades da Saúde de Campinas definiram começar a partir desta sexta-feira (03/07) ações para reforçar a conscientização da população sobre os protocolos de prevenção da doença.

O reforço do uso de máscaras e protocolos de higiene assim como o controle no transporte público foram destacados como medidas necessárias para viabilizar o retorno das atividades.

Dr. Marcelo Amade lembrou que a SMCC já criou e vem divulgando protocolos de orientação para convívio com doente dentro de casa, além de orientações para entrada e saída de casa. Ele convocou a imprensa local a auxiliar na educação da população. “Se vamos nos comprometer então com uma campanha de educação, a gente (SMCC) já vai “botar a mão na massa”. Imprimam os protocolos da SMCC e fixem nos elevadores do seu condomínio, seu trabalho, etc. Até queria um apelo para que a imprensa ‘comprasse’ essa campanha para a gente ter ajuda deles para conscientizar a população”

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Dr. José Roberto Franchi Amade, vice-presidente da SMCC e presidente da Associação dos Day Hospitals de Campinas ainda trouxe um novo elemento para a discussão.

“Partindo desta premissa, dentro de instituições de saúde, mesmo os hospitais maiores que estão com duas entradas (uma para Covid e outra não-Covid), os day hospitals  que são estruturas menores, poderiam atender este paciente que está precisando de algum procedimento, ele estará até melhor atendido. Então, esta questão econômica todos os colegas dos hospitais estão sentindo. Os hospitais estão chegando no seu limite. Isso não é bom para ninguém. Nós poderíamos ver de flexibilizar um pouco nos procedimentos eletivos. Não temos que abrir mão do isolamento, mas os pacientes crônicos estão deixando de se cuidar pois estão com medo de ir aos hospitais e consultórios. É hora de nós flexibilizarmos um pouco nessa parte eletiva para cuidar dos pacientes crônicos e também para colaborar na parte econômica (das unidades de saúde)”.

Dr. José Roberto destacou que a SMCC promoverá uma força-tarefa com a OAB e magistrados para abordar as questões jurídicas, uma vez que há expectativa de uma enxurrada de processos na esteira da pandemia. Na próxima terça-feira (07/07) às 19h ocorrerá o primeiro de uma série de webinars entre médicos e juristas. Neste primeiro será abordada as questões trabalhistas.

Em sua mensagem de encerramento, a presidente da SMCC, Dra. Fátima Bastos relembrou que na ocasião da fundação da Sociedade de Medicina e Cirurgia de Campinas (SMCC), em 1925, em decorrência do combate a epidemia da Gripe Espanhola, estamos hoje na mesma situação. Campinas, assim como há mais de uma década atrás, também começa a se destacar por apresentar início de um melhor desempenho do que a capital São Paulo ou outras grandes cidades.

Dra. Fátima afirmou que a entidade irá reforçar ainda mais os materiais de conscientização que desde o início da pandemia vem publicando; não medindo esforços para ajudar a cidade no enfrentamento da Covid-19.

Além da Campanha e ineditismo das ações com a realização dos Fóruns, a médica aproveitou para destacar o trabalho dos profissionais de saúde. “Parabéns aos envolvidos no Inquérito que sabemos que exigiu muito trabalho. Todos temos muito orgulho da nossa Vigilância que é famosa em ser muito rígida mas ao mesmo tempo por ser muito boa. Acho que nós médicos temos um influência também no consultório com nossos pacientes e conseguimos também atingir e orientar nossa população”.


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